Por: Angelo


Olá, meu nome é Ângelo de Almeida Rodrigues, tenho 27 anos, atualmente sou professor de filosofia na rede Estadual, moro com a minha família, tenho amigos e namorada, sou membro da Oficina de Valores. Meus defeitos são principalmente a preguiça, a desorganização, a ansiedade e a insegurança, já minhas qualidades são o companheirismo, a boa escuta e a simplicidade.

A apresentação breve escrita por mim acima admite: a minha maior dificuldade foi apontar minhas qualidades e minha maior facilidade estava em demonstrar meus defeitos, e talvez seja também a sua. Esta dificuldade de enxergar uma positividade coincide também com o cotidiano de nossas vidas, no lidar das resoluções, sejam elas práticas como pegar um ônibus, conversar com alguém sobre um determinado assunto, fazer a manutenção de algo ou também abstratas, como construir pensamentos sobre determinados assuntos, pensar sobre uma decisão, planejar as coisas para presente e futuro. Nós sofremos para lidar com essas situações por vários motivos, sendo o principal dentre eles, um certo perfeccionismo. 

O perfeccionismo ataca a todos de algum modo ou de outro (talvez até aquela pessoa que você ache sem compromisso, ou muito preguiçosa, que faz as coisas todas pela metade), porque no fundo o homem tem um desejo tremendo de não errar em nada, pois isso traz os mais variados retornos desagradáveis: um ônibus perdido porque dormiu demais, uma coisa que não deveria ser dita àquela determinada pessoa, um erro ao consertar alguma coisa ou até mesmo ter pensamentos equivocados sobre determinada situação, tomar uma decisão ou planejar algo errado para a vida.        

Com isso, nos vem a pergunta: por que nós erramos? A justificava mais direta e lógica é de que somos limitados, seja nas nossas características materiais ou imateriais. Exemplo de limitação é a própria morte, ou mesmo que nossa mente sofre influência dos nossos desejos. O ser humano nasce com essa marca da imperfeição. Diante disso, a maioria das pessoas, de um modo ou de outro, não aceita essa característica intrínseca no homem. Ao longo dos séculos, vemos várias dessas pessoas tomando medidas extremas para tentar transformar um homem em um deus, fugir de sua essência. Mesmo cada um de nós, em algum momento, agimos como se nossos limites não fossem reais, almejando esse perfeccionismo como dito acima. 

Contudo, essa luta intensa nos frustra, porque sempre falhamos ou somos imperfeitos, em um momento ou outro da vida. Pode parecer que esse texto não tenha o menor sentido a não ser trazer um pessimismo humano como muitos pensadores contemporâneos nos indicam. 

Mas ao invés de remoermos e enxergar nossos limites como negativos, proponho um ponto de vista diferente, trazer à tona os pontos positivos desses limites, de nossa "essência" ou "marca" de nascença. 

Em um primeiro momento, é necessário olharmos com amor nossa essência de sermos imperfeitos, que contém defeitos, ao invés de os colocarmos como barreiras para não alcançarmos as coisas, limitarmos nossas atitudes diante das situações, ou até mesmo nos inferiorizarmos diante dos demais por isso. Devemos, pois, ter uma postura contrária a isso, encarando estes defeitos como um sinal, ainda que difícil, de modelagem para uma vivência intensa de nossas qualidades, ou um desafio para que estes meus erros se transformem em acertos. A minha preguiça pode ser um aviso do quanto preciso organizar a minha vida, fazer com amor as coisas, ou ir além em determinados momentos; a minha ansiedade me mostra o quanto ainda preciso ser paciente, equilibrado ou confiante nas decisões que são feitar por mim ou por alguém. Em suma, posso encarar os meus defeitos como alertas para um maior cuidado das minhas qualidades.

Por seguinte, pensarmos em nossas ações erradas nos traz alguns pontos importantes. O primeiro ponto é tomar consciência de que praticamente toda ação não depende somente de nós, as variações são diversas sejam elas referentes aos objetivos, aspectos naturais e até pessoas que são, como eu e você imperfeitas, trazendo resultados que nem sempre coincidem com o que planejamos. Porém, essas problemáticas podem trazer também aspectos positivos (depende de aceitarmos encarar assim) como a paciência e a improvisação para dar soluções novas aos problemas, gerando assim a caridade em si, a compreensão com um ocorrido ou com uma pessoa. Por exemplo, se encaramos com um olhar diferente a dificuldade de uma pessoa do seu grupo em apresentar um trabalho, mesmo que prejudique a nota geral, podemos ser pacientes, compreensivos e buscar uma maneira de ajudá-la, no momento ou posteriormente. 

O segundo ponto: na ótica das minhas escolhas individuais, há um entorno de muitos arrependimentos e lamúrias por não ter tomado uma decisão acertada ou feito bem uma coisa. De fato, é muito nobre nos arrependermos das coisas, contudo carregar um ressentimento sem ter em vista algo de bom disso tudo é ter uma vida repleta de tortura. O que nos mostra o quanto encaramos as decisões com muito orgulho (no sentido negativo). O orgulho de acharmos que o melhor é o que decidimos e que aquilo teria que ser do nosso jeito ou da nossa vontade. Um erro pode ser um sinal positivo, que nos faça perceber que o outro pode nos ajudar nestas decisões, nos mostrar algo que não podemos ver, trazendo assim, a qualidade da humildade e da escuta.       

E por fim, dentro de cada um desses “outros” que podem nos ajudar, há um Outro que é maior que todos, e que é a maior razão para vermos positivamente o fato de sermos limitados. Nossos limites são a demonstração que somos totalmente dependentes de Deus. Primeiramente porque Ele é o único Ser perfeito, que conduz tudo que é imperfeito. Mas também como todo pai que tem paciência com um filho por seus erros, Ele nos conduz a entender que mesmo dentro dos limites há algo maior que nos espera, um sentido naquela decisão mal feita, naquele momento inesperado ou até mesmo naquele defeito insistente, e que só cada uma de nós em particular diante de Deus saberá. Mas Ele também é misericordioso, e, mesmo quando nossos defeitos nos atrapalham, como diria Santo Agostinho, "A graça supera a natureza". A ação de Deus supera os nossos limites e obstáculos, das coisas mais simples às grandes. Sendo assim, podemos terminar com a mesma certeza de que São Paulo fala aos Coríntios: 

“Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim [o espinho na carne]. Mas ele me disse: Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força. Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo. Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte." (II Coríntios 12,8-10)



Angelo Rodrigues
Professor de Filosofia
Oficina de Valores

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