Por: Alessandro

Uma resenha deve ser escrita logo após o filme ser assistido. Se essa regra não pode ser universalizada, ao menos comigo deve ser aplicada ao pé da letra. Tenho uma memória péssima e após uma semana já esqueci boa parte do que seria importante comentar. Apesar de saber isso, escrevo esses comentários sobre o recente filme da Mulher Maravilha exatamente sete dias após ter ido ao cinema assisti-lo. Com toda a certeza, deixarei elementos fundamentais de lado. Só consigo ver uma vantagem em redigir esse texto hoje: nele estará contido aquilo que ficou após passar pelo crivo de uma memória fraca.

Mulher Maravilha chegou ao cinema sob o signo da desconfiança. Após O Homem de Aço, Batman vs Superman e Esquadrão Suicida, poucos eram aqueles que esperavam um grande filme da princesa amazona. Esse quadro de baixas expectativas começou a ser revertido com as primeiras críticas, bem diferentes daquelas que foram dirigidas aos três últimos filmes da DC. No grupo composto por aqueles que assistiram ao filme primeiro, existiram os que não gostaram, mas pela primeira vez desde 2013 estes não eram a maioria.

A recepção do público não foi diferente da mostrada pela crítica e as reações de euforia e os elogios nas redes sociais logo ficaram comuns.  Houve mesmo um comentário que brincou com os tropeços da DC em comparação com os sucessos vindos dos Marvel Studios. Dizia ele:  “o filme ficou tão bom que até parece da Marvel”.

Diante dessa entusiasmada recepção, as questões que se colocam são: 1 -O filme merece os elogios que recebeu?  2 - Realmente a DC fez um filme nos moldes dos Marvel Studios? 3 - Mulher Maravilha traz esperança para o universo cinematográfico da DC?

Minhas respostas para elas são: sim, não e sim.

Em Mulher Maravilha temos uma história de origem muito bem contada, um roteiro sem grandes furos, boas atuações, uma protagonista carismática, momentos emocionantes e uma história capaz de gerar empatia no espectador. A coisa toda funciona de maneira orgânica e fica fácil suspender a descrença diante dos exageros que o gênero de super-heróis traz. Não custa lembrar que boa parte disso é uma novidade nas produções da Distinta Concorrente...

Sobre o fato do filme se render à fórmula Marvel, creio que seja um exagero. O filme mantém uma fidelidade estética ao que foi feito antes: os tons mais escuros, as cenas em câmera lenta... Tudo continua. Sobre os alívios cômicos, eles realmente aumentaram em número, mas vale dizer que eles funcionaram melhor do que em boa parte dos filmes da concorrente.  Foram construídos de forma a ser apenas uma consequência das reações de alguém a costumes que não entende. Algo parecido com o que acontece com o Capitão América, mas melhor executado.

O filme possui suas fraquezas. Entre os vários elementos que poderiam ser melhor cuidados estão os soldados que acompanham Diana. Eles poderiam ser um pouco menos caricatos; a impressão é que estão ali só por estar. Além disso, a sequência final foi, a meu ver, mal conduzida e atrapalha o clímax. Há o esforço por construir algo épico, mas os momentos de melodrama desnecessários fizeram com que o resultado ficasse aquém do que podia ser.

Um dos pontos altos da jornada da heroína contada em Mulher Maravilha é que a personagem não apenas realiza sua missão, mas confronta seus valores. Ares não é o único responsável pela destruição que os humanos acarretam e a salvação da humanidade não virá da derrota de um vilão. O mal está no coração dos homens e é lá também que ele deve ser vencido. Em outras palavras, Diana terá que decidir lutar por aqueles que não merecem afim de que um dia possam ser melhores. Escolher lutar pelos bons é uma tarefa difícil, combater para salvar os maus é uma decisão que parece desafiar o bom senso. Acontece que esse é o único caminho para aqueles que realmente desejam transformar a realidade. Afinal, “não se trata do que eles merecem, mas do que nós acreditamos”.

Chega a ser interessante ver que Mulher Maravilha apesar de suas constantes referências à mitologia grega está carregado de uma visão de mundo marcada pelo cristianismo. O início do filme chega a dizer que os homens foram feitos a imagem dos deuses e que por certa influência externa se perderam. Além disso, a vocação das amazonas parece diretamente relacionada a uma missão de redenção da humanidade. Essa redenção inicialmente é vista como consequência da derrota de um inimigo primordial mas, a partir de certo momento, passa a ser entendida como uma reforma ou regeneração interior. Nesse contexto, é muito bacana ver a releitura feita dos deuses gregos e dos seus desejos para a humanidade feita nesse longa-metragem.

Outro ponto que chama muito a atenção no filme é a reflexão que ele traz sobre a banalidade do mal. Diana fica indignada momento após momento com situações e coisas que para todos à sua volta são naturalizadas. Ela toma decisões tidas como imprudentes apenas porque não suporta que o sofrimento dos mais fracos e inocentes seja tratado com indiferença. E essa sua postura vem do fato de que ela não está acostumada com a maldade... Seus olhos não conseguem ignorar a dor que passa diante deles; a amazona não consegue tratar os sofredores como invisíveis. Por isso fica fácil concluir que ela se torna uma heroína não porque é poderosa, afinal Ares também o é; sua grandeza reside no fato de que nela o amor é maior que o poder.

Dentro da história que seu filme conta, a Mulher Maravilha tornou-se o início de possibilidades melhores, um sinal de esperança. Não é exagero dizer que quando pensamos o mundo fora da tela, o mesmo pode ser dito. Com Mulher Maravilha, a DC renasceu nos cinemas e mostrou que nem só de Batman vive seu universo. Depois deste filme, as expectativas para Liga da Justiça aumentaram e, pela primeira vez, parece que teremos uma sadia disputa pela ponta nos filmes de super-heróis.

Para encerrar, quero recordar a ideia que fechou um dos filmes do Batman dirigido por Christopher Nolan: Ele não é o herói que merecemos, é o que precisamos. A mesma ideia poderia ser repetida para concluir Mulher Maravilha e talvez qualquer filme com arquétipo de super-heróis qual tal os quadrinhos nos comunicaram. Uma semana depois de assistir  à história da Princesa Diana fico pensando se não é próprio da essência do heroísmo colocar a necessidade do outro acima de seus merecimentos e que heróis serão aqueles que souberem vencer a tendência de dizer a si mesmos: Não vou me envolver, afinal eles estão recebendo exatamente aquilo que merecem...

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia
Fundador da Oficina de Valores

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